segunda-feira, 16 de março de 2009

Eu penso que ter tido a oportunidade de educar meus filhos foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. E ainda está sendo. Meu menino e minha menina serão por mim para sempre, ou, melhor, enquanto vivermos. Sinto isso, não precisa ser dito. Quando falam que não se pode ser amigo dos filhos, que pai e mãe devem manter um certo distanciamento e não conversar sobre tudo com os filhos, confesso que sinto uma certa maldade nisso. Coisa de gente que não consegue sentir esse amor espontâneo. Coisa de gente que não se permite, que se esconde, que se justifica o tempo inteiro.

Como não conversar sobre tudo com eles? Amo, apaixono, fico fitando eles sem desgrudar os olhos quando vêm me contar alguma coisa, seja dos namorados, seja dos ficantes, seja dos amigos, da escola, da faculdade, dos professores, simplesmente fico em êxtase por poder ajudar e aconselhar. Quero pegar no colo, cuidar. As vezes penso e converso com amigas e com o marido, que como não tive isso, não tive nem de perto essa proximidade com os meus pais, de alguma forma compenso por eles, agindo como eles não agiram comigo.

Fui criada no grito e com uma barreira intransponível entre mim e minha mãe, entre mim e meu pai. Minha mãe, quando vem ao meu encontro quando chego na casa dela, não me olha nos olhos. Isso me arrasa. Eu já aprendi a perdoa-la, por ela ser assim, justificando que o pai e a mãe dela foram assim com ela e portanto ela não aprendeu. As vezes adianta. As vezes não. Com meu pai também foi assim, com o agravante de minha mãe o ter afastado de mim e dos meus irmãos, pintando ele pra gente como um monstro. Quantas brigas presenciei, vendo meu irmão, um ano mais novo, gritando agarrado as pernas do pai e dizendo não, por favor não vá embora. Hoje sou mais mãe do que filha deles.

As vezes brinco com meus colegas e amigos me perguntando poxa, porque não nasci neta da Lia Luft, ou filha da Guru Marise? Eu faço diferente do que vivi, talvez hoje em dia, pois claro que no início do meu relacionamento, novinha, imatura, influenciada pela minha educação extremamente machista, também briguei na frente deles, também os afastei do pai deles, também fui submissa, também fui uma mãe e esposa mártir e sofredora, que só sabia reclamar. Eu vivi durante anos o modelo herdado da minha avó materna e da minha mãe. Sofri. Custou. Repeti o que era melhor pra mim inúmeras vezes, tentando sem desistir. Interiorizei. Mudei. Tive outras mães pelo caminho da vida. Amigas mães. Tias mães. Marido mãe. Filhos mãe também, e nossa!, todo dia aprendo com eles!

Será que é tão difícil o caminho do coração, esse que usamos todo o dia lá em casa? O caminho do meu é meio tortuoso, meio teimoso querendo se desviar e com algumas pedras rancorosas. Uma dificuldaaade para aceitar um pedido de desculpas? O do maridão é uma serra ensaboada, um tobogã, mas que tem uma porta de madeira, com algumas coisas que entalharam nela e meio pesada pra empurrar. O dos filhotes acaba pegando um pouco do jeitão da gente de tanto passar por esses dois caminhos. Mas estão em obras, moldando com seus operários, e tratando de cuidar do deles. Sabe que nossas obras de reparos começaram há um tempo também? Complicado, mas não impossível. E os filhotes estão sabendo ser pacientes e vibram (embora não divulguem) com cada pedacinho reparado dos caminhos. Contrataram umas equipes boas pra ajudar.

Já disse que amo vocês hoje? Não?! Então, eu te amo.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Nesse link está a entrevista de uma das minhas amigas/mães do GPH - Grupo de Pais de Homossexuais, e que eu falei que explicaria o que é. Fundado pela Edith Modesto, quando soube da homossexualidade do próprio filho e ao buscar alguém como ela, não conseguiu encontrar, por isso resolveu fundar esse grupo.

Quando meu filho me contou que é gay, sofri, chorei, fiz mil perguntas a ele do tipo "tem certeza filho, não é só uma fase?", "mas você sabe porque aconteceu isso, será que é culpa minha, será que é culpa do seu pai?", mas somente por poucos dias, graças a meu histórico de vida. No dia seguinte, e nessa hora eu tenho certeza de que conhecemos pessoas ao longo das nossas vidas porque precisaremos delas em nossa caminhada, liguei para um casal, que são dois meninos maravilhosos vivendo um relacionamento de mais de 10 anos e que conhececíamos a pouco mais de um ano, e contei pra eles. Eles me receberam em sua casa, me acolheram, e o que ouvi foi "... seja bem-vinda! Você verá que nossa classe é maravilhososa, levamos tudo numa boa, com bastante alegria". A ajuda deles foi fundamental, pois eu tinha muito medo de contar para o meu marido e nessa hora eles me tranquilizavam duvidando que meu marido pudesse agredir de alguma forma nosso filho. Passou uma, duas semanas. Trocávamos depoimentos pelo orkut, eu frequentava o estabelecimento comercial deles, eles me emprestaram livros e panfletos explicativos, tudo escondido. Aqui cabe um parênteses: meu filho e minha filha de 13 anos foram maravilhosos, sempre muito unidos, tiveram uma paciência incrível comigo ouvindo meus choramingos e me ajudando a entender toda essa reviravolta nas nossas vidas (amo muito vocês dois, mas saber que vocês sabem e sentem isso é o mais legal disso tudo!). Acabei descendo ao fundo de um poço depois de 20 dias, quando contei para o pai deles. Sofri muito junto e chorava, mal conseguia trabalhar, preocupada com esse pai que como eu não foi educado para ter um filho gay. Jamais saberíamos lidar com isso sozinhos.

E foi buscando ajuda para poder apoiar meu marido que encontrei o GPH. O GPH é uma ONG que tem o grupo presencial e também um grupo fechado no Yahoo, onde as mães escrevem e todas lêem e comentam. Fui recebida de braços abertos, por muitas mães com respostas de carinho, com casos parecidos, outras em situações bem mais complicadas. Edith, que também é autora de dois livros que ajudam muito os pais no processo da aceitação de ter um filho diferente: "Vidas em Arco-Íris" e "Mãe sempre sabe? Mitos e verdades sobre pais e seus filhos homossexuais", tem uma vasta experiência com mães, pais e filhos e com um jeitinho todo especial consegue contribuir sempre no processo de aceitação de tantas famílias.

Obrigada mães queridas por tudo o que aprendi com vocês! Maravilhosas!


Maravilhosa essa propaganda, pois ajuda na desconstrução do preconceito. O que você acha?